A espiral económica esquizofrénica do progresso

Sempre foi um pensamento, uma ideia, que me acompanha há muitos anos. 

E estou certa que é algo que já ocorreu a muita gente. Períodos de ócio prolongados levavam-me a isto. Não me sinto culpada. A culpada era a janela do pequeno apartamento que ocupava à época e que tinha visibilidade total e aproximada para a marginal Cascais-Lisboa onde eu assistia todos os dias a milhares de pessoas over-and-over a deslocarem-se para a cidade nos pequenos habitáculos dos seus automóveis. 

A minha pequena e egoísta filosofia dizia-me o quanto era injusto que seres humanos fossem obrigados a tantos sacrifícios físicos e psíquicos só para no final poderem pagar umas quantas prestações ao banco, mais a luz e a água, e o colégio dos miúdos.

Querer-se tudo é impossível, e certamente não há lugares ao sol para todos. 

Para ter aquelas coisas, alguns teriam mesmo que passar por estes sacrifícios, estes ao menos ainda vão de automóvel, a maioria andará a pé. Mas regressemos ao pensamento. 

O pensamento que me afligia era a relação entre a necessidade de arranjar empregos para toda a gente, para naturalmente justificar um salário, e com ele adquirir bens, e a necessidade social desses mesmos bens. 

Não duvido que um país que produza mais, e gere portanto mais riqueza, pode distribuir ou redistribuir mais rendimentos por todos. Pelo menos se for um país justo. 

O problema é a sensação de fatalidade que isso transmite. A ideia de que os países só sobrevivem com crescimento económico e para que o mesmo se mantenha infinitamente temos que pensar sempre em produzir mais e mais. 

Tem que haver sempre mais qualquer coisa para fazer, sob pena da estrutura social ruir, nem que o que se arranje seja uma perfeita inutilidade. 

Mas as necessidades a dada altura também se esgotam ou ter-se-ão que inventar necessidades para acompanhar aquela produção mais e mais? O pensamento que vos referia é agora quase esquizofrénico. 

Não só já não há necessidades que justifiquem tanto trabalho, as pessoas já têm quase tudo, ou pelo menos pensam que têm, como mais preocupante, deixa de haver lugar a quem se determine a si próprio ausente de certo tipo de necessidades. 

Um povo, ou uma pessoa, que busque uma vida mais simples passa, neste modelo, a ser visto como uma contradição, uma curiosidade ou um anacronismo. Ou a ser visto como preguiçoso. 


Querer ser pobre, sem ter tanta coisa, pode ser uma opção para muita gente. Não querer ter tudo, querer ter menos, ter mais tempo, por exemplo. 

Só que no tal modelo em que é preciso  quase por imperativo de sobrevivência arranjar qualquer coisa para ocupar as populações (não há maior perigo que mentes desocupadas) essa espiral positiva não é infinita. 

Não só não é infinita como é perseguida por quase todos os povos. Tornou-se uma guerra de sobrevivência, arranjar artefactos, mesmo que inúteis, que uns queiram produzir e outros queiram comprar.
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