Acho que era Huxley (provavelmente inspirado em Platão) que, relativamente ao sentimento de perda, dizia que nunca podíamos sentir na totalidade a dor dos outros, e o que sentíssemos, se sentíssemos alguma coisa, certamente sê-lo-ia pela metade.
Assalta-me este pensamento para tentar qualificar e caracterizar quem pensa os nossos destinos, e quem age em conformidade com esses mesmos pensamentos.
Quem são afinal as pessoas que usurpam a nossa voz?
Quem são as pessoas que mimetizam a realidade e à maneira de um disco riscado, ficcionam os direitos de cada um sobre o que devem ou não sentir?
Tomando como premissas que me parecem correctas, aquilo que chamamos realidade é basicamente aquilo que vemos na televisão e lemos nos jornais (para quem se dá ao trabalho e ao dispêndio de os ler).
Poucas pessoas dispõem de tempo (têm de trabalhar e alimentar os filhos) para se dar ao luxo de ir um pouco mais fundo e averiguar uma realidade desmistificada como aquela de que usualmente as nossas narrativas se alimentam.
Isto para dizer que me parece quase anacrónico, mesmo absurdo, ver que têm sido nos tempos que correm os ricos a falar e a determinar as vidas dos menos afortunados (isto se não foi sempre assim).
Provavelmente o politicamente correcto ou numa hipótese não menos impossível, o cinismo, tem determinado que pessoas que auferem salários generosos - políticos, empresários, assessores, dirigentes e outros - se demandam nestes tempos, paladinos dos pobres, dos portugueses com salários minguos.
Nunca tanto como hoje os bens afortunados se predispõem a falar tanto nos que menos fortuna conhecem.
Pena que as pessoas mais pobres não se alimentem nem de palavras nem de retórica, caso contrário seriamos hoje um país de obesos. E a pergunta e dúvida que me coloco é esta. Que estranho pessoas que auferem dezenas de milhares de euros mensalmente, pessoas insensíveis ao corte de um ou dois milhares de euros, nunca como hoje falaram tanto da vida dos pobres.
Porquê? E porquê roubarem a propriedade da voz? Não seria normal serem os pobres e mais desafortunados a fazerem-se ouvir? Será justo que a propriedade interventiva da voz, falando assim, esteja desta maneira a ser ilegitimamente subtraída? Parece-me que sim.
A voz só pode pertencer àqueles que sentem na pele e no seu interior os primados racionais e do espírito que originam a exalação e o vibrar das cordas vocais em que se consubstancia essa mesma voz.
Falem os ricos do que lhes interessa, do que sentem, do que querem, e provavelmente tornar-se-ão mais compreensíveis.
E falem os pobres dos seus males se tiverem tempo para o fazer.
As peles de cordeiro arrepiam e no que vem acontecendo a subtracção da "voz" é também ela uma forma de furto e de usurpação que nada mais é que uma forma de alienação social dos visados ("se eles falam desta maneira tão bonita a nosso respeito que tenho eu para dizer, nada").
Enfim, a realidade é (embora não devesse) mimetizada.
A maior parte das pessoas não pensam por si próprias. A inércia e a preguiça traduz-se na adopção de narrativas e pensamentos que, não nos pertencem, pertencem a quem, intencional ou inadvertidamente, os criou.
Muitas dessas pessoas, dessas "vozes" não sentem. A natureza humana impede que quem ganha 10.000 sinta como vive quem ganha 500. É humanamente impossível, desde logo porque ninguém pode sentir a dor dos outros. Apenas fingem que sentem, no entretanto e na falta de melhores ventos, para te quererem mudo, lá se vão servindo da tua voz.
Assalta-me este pensamento para tentar qualificar e caracterizar quem pensa os nossos destinos, e quem age em conformidade com esses mesmos pensamentos.
Quem são afinal as pessoas que usurpam a nossa voz?
Quem são as pessoas que mimetizam a realidade e à maneira de um disco riscado, ficcionam os direitos de cada um sobre o que devem ou não sentir?
Tomando como premissas que me parecem correctas, aquilo que chamamos realidade é basicamente aquilo que vemos na televisão e lemos nos jornais (para quem se dá ao trabalho e ao dispêndio de os ler).
Poucas pessoas dispõem de tempo (têm de trabalhar e alimentar os filhos) para se dar ao luxo de ir um pouco mais fundo e averiguar uma realidade desmistificada como aquela de que usualmente as nossas narrativas se alimentam.
Isto para dizer que me parece quase anacrónico, mesmo absurdo, ver que têm sido nos tempos que correm os ricos a falar e a determinar as vidas dos menos afortunados (isto se não foi sempre assim).
Provavelmente o politicamente correcto ou numa hipótese não menos impossível, o cinismo, tem determinado que pessoas que auferem salários generosos - políticos, empresários, assessores, dirigentes e outros - se demandam nestes tempos, paladinos dos pobres, dos portugueses com salários minguos.
Nunca tanto como hoje os bens afortunados se predispõem a falar tanto nos que menos fortuna conhecem.
Pena que as pessoas mais pobres não se alimentem nem de palavras nem de retórica, caso contrário seriamos hoje um país de obesos. E a pergunta e dúvida que me coloco é esta. Que estranho pessoas que auferem dezenas de milhares de euros mensalmente, pessoas insensíveis ao corte de um ou dois milhares de euros, nunca como hoje falaram tanto da vida dos pobres.
Porquê? E porquê roubarem a propriedade da voz? Não seria normal serem os pobres e mais desafortunados a fazerem-se ouvir? Será justo que a propriedade interventiva da voz, falando assim, esteja desta maneira a ser ilegitimamente subtraída? Parece-me que sim.
A voz só pode pertencer àqueles que sentem na pele e no seu interior os primados racionais e do espírito que originam a exalação e o vibrar das cordas vocais em que se consubstancia essa mesma voz.
Falem os ricos do que lhes interessa, do que sentem, do que querem, e provavelmente tornar-se-ão mais compreensíveis.
E falem os pobres dos seus males se tiverem tempo para o fazer.
As peles de cordeiro arrepiam e no que vem acontecendo a subtracção da "voz" é também ela uma forma de furto e de usurpação que nada mais é que uma forma de alienação social dos visados ("se eles falam desta maneira tão bonita a nosso respeito que tenho eu para dizer, nada").
Enfim, a realidade é (embora não devesse) mimetizada.
A maior parte das pessoas não pensam por si próprias. A inércia e a preguiça traduz-se na adopção de narrativas e pensamentos que, não nos pertencem, pertencem a quem, intencional ou inadvertidamente, os criou.
Muitas dessas pessoas, dessas "vozes" não sentem. A natureza humana impede que quem ganha 10.000 sinta como vive quem ganha 500. É humanamente impossível, desde logo porque ninguém pode sentir a dor dos outros. Apenas fingem que sentem, no entretanto e na falta de melhores ventos, para te quererem mudo, lá se vão servindo da tua voz.
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