Greve geral dos esquecidos

Mais uma greve geral anunciada. 

Já tive oportunidade para escrever aqui sobre o que penso de um tipo de manifestações que nos dias que correm têm como único efeito prejudicar os mais desafortunados, por exemplo aqueles cuja única possibilidade de mobilidade são os transportes públicos ou que vivem de um pequeno salário que agarram com unhas e dentes. 

Mas façamos um pequeno exercício sobre a sua natureza e características. 

Parece-me que a greve é um tipo de manifestação representativa do aforismo da "união faz a força". Isso parece-me óbvio, um trabalhador por si só não tem voz, mas juntos podem fazer a diferença.

Parece-me também que é uma forma de coacção psicológica. No inicio essa intenção coactiva dirigia-se somente às entidades patronais, e era bem-vinda  pela quase totalidade dos trabalhadores que viam aí uma esperança de melhores salários, mesmo que, digamo-lo, obtidos pela força reivindicativa. 

Agora parece que essa pressão coactiva mina toda a sociedade. Pelo menos aqueles que são pobres ou mais ou menos remediados, pregados a este chão nacional, incapazes de dele se escapar para melhor lugar. 

Um tipo de pressão que nos faz temer que o mau se torne pior ainda mais. 

É que a força reivindicativa da greve, revela-se, no período de mingua orçamental que vivemos, uma profunda inutilidade. Não é necessário ser-se muito inteligente para perceber que o ser e o não ser não podem coexistir ao mesmo tempo. 

Ou há dinheiro ou não há. 

Ou as empresas estão a vender ou não estão. No final do dia, quando mais prejuízos se acumularam, mais dias de trabalho foram inutilizados, as vozes do costume dirão "não resolve nada, mas é um direito, um direito à indignação". 

E o direito dos outros?. 

Daqueles que já entenderam que as desigualdades sociais se forjaram no passado. Que o momento que vivemos é já um efeito, cuja causa principal foi a nossa própria indiferença, a ausência de cidadania responsável, que abriu caminho aos vilões do costume. 

Talvez a greve sirva pelo menos para isso, como um acto colectivo de auto-critica. Vejam em que é que nos tornamos. Vejam como deixámos que ficássemos assim.
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