A honra dos portugueses


A honra, essa coisa antiga, maturada, depois sedimentada, passada de mãos em mãos, que o tempo, qual corta e cola, fez transitar paulatinamente do consciente para o subconsciente de todos nós. 

A honra no respeito dos contratos. A honra, sempre presente, no respeito pelos termos de compra de divida, nos contratos com construtores e bancos financiadores nas parcerias publico-privadas, em todos os acordos, enfim, em que nos tornamos parte. 

Hoje, essa honra, determina boa parte de todas as nossas acções, muitas vezes, creio, sem sequer termos noção desse facto. Está cá instalada, e pronto. 

O problema da honra é quando se move num ambiente pouco ecológico. 


A honra não convive bem num meio impregnado de vilões, traidores, Vasconcelos e ladrões. 

Num ambiente desses a honra e a sua irmã mais próxima, a integridade, tendem a confundir-se com estupidez, ingenuidade e ausência de inteligência. 

A falta de escrúpulos, a violência gratuita (não necessariamente física) estão bem melhores adaptadas às actuais circunstâncias, e mais grave, têm consciência da subconsciência da honra. 

Talvez seja por isso que sabem que a honra estará sempre disposta aos maiores sacrifícios para o cumprimento do acordado, seja nos juros, nas rendas, nos dividendos, independentemente de o serem espoliativos, usurários, criminosos. 

A honra até se resigna, e convive bem com isso, que a  apelidem de ingénua, crente, irrealista, é aceitável. Não sobrevive, contudo, é se a tomam por trapaceira. 

Uma fraqueza que se junta a todas as outras.  A honra pode ser roubada, burlada, enganada, trapaceada e iludida, ofendida até por crimes indeléveis que nem parecem crimes (homicídios sem rosto que se chamam operações financeiras ou, no seu epíteto mais radical, meramente especulativas) que a ela, sem considerações ou reflexões de maior, só importa, acima de tudo, cumprir. 

A honra e a sua defesa anulará, certamente e por décadas, sonhos e muitos projectos. 

Aos que virão, a honra ser-lhes-á  passada naturalmente e como sempre. Mas agora, com ela, e duma forma perfeitamente consciente, também o será a desesperança. 

Pode ser que o tempo (e a honra) a cure, destruindo-a, a desesperança, ou se o não conseguir, que a torne endémica, passando-a do consciente para o subconsciente, e assim perdure.
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