Os homens da troika em Portugal e o resgate

Quando nos entraram pela porta os homens da troika (o alemão cabeludo, o fino e alto careca com seis fios de cabelo plantados ao centro, o olhos azuis, o bigodes com ar de português amante de convénios do bom vinho e de postas mirandesas) causaram-me logo uma primeira impressão que, passado este ano, ainda ando a tentar descodificar. 

A primeira impressão foi o aspecto desarranjado dos mesmos. 

Vestidos com fatos de aspecto barato, prêt-a-porter, desarranjados, fica-se sem saber se é uma mensagem politica, se são apenas pessoas que se vestem mal, se são daquelas pessoas que nunca vestem um fato na vida e têm apenas um (regra geral demasiado largo nos ombros e com vinte anos de idade mas aspecto novo) para as encomendas, ou se é resultado da extenuante viagem que fizeram para chegar aqui a este pequeno canto da Europa. 

Como mensagem politica ficava bem, veja-se portugueses, nós funcionários internacionais aqui mal vestidos, parcimoniosos nos gastos, a dar-vos uma lição daquilo que é necessário ser feito, que é no futuro comprem nos chineses como nós que é mais barato e encaixa na verba que têm. 


Ou então são mesmo mal vestidos e daí a célebre frase do Ulrich que, talvez pela imagem que passavam, lhes chamou funcionários internacionais de terceira categoria (como se o Ulrich não fosse ele mesmo um banqueiro de quinta ou sexta categoria já que há bancos locais numa qualquer cidade americana com maior capitalização que o banco que dirige, mas isso é outra história). 

Ou então ainda é gente, técnicos, que usualmente não sabem o que é um fato e nem querem saber e só tiram o tal cinzento com corte antiquado e ar deslavado e abandalhado quando o diabo esfrega um olho. 

Faz-me lembrar aquelas pessoas que se apresentam nos casamentos de fato e gravata (quando no dia-a-dia andam nas suas andanças de calça de ganga e camisa ou tee-shirt) e passam o tempo a torcer o pescoço ou a encolher e alargar os ombros a ajeitar a malfadada vestimenta. 

Tudo isto é possível, embora considerando o facto de terem chamado um táxi para irem para o hotel e se deslocaram a pé do mesmo para o local de trabalhos, me faça dar a mensagem politica como o pretendido. 

E isto é importante porque me oferece em contraposição uma oportunidade de análise da sociedade portuguesa e em particular de uma determinada elite, não só governante, mas, duma forma mais lata, uma elite interveniente na sociedade. 

Interveniente de um modo tal que somos, digamos, obrigados a aturá-los. 

De um lado temos um pequeno grupo de funcionários internacionais, que determinam o nosso destino para os próximos anos, que sendo ou não, parecem parcimoniosos nos gastos, dizendo-nos para sê-lo, e bem ou mal também, parecem-se com povo. 

A nossa elite interveniente, aquela que nós povo deixamos que seja interveniente, é aquela que passa a mensagem de pretender determinar  o nosso destino tudo sempre bem arranjadinho e regado nos almoços e jantares no Ritz ou Mezzaluna. 

Tudo isto cheira-me a um fato velho com cheiro a naftalina. 

Refiro-me naturalmente há elite pretensamente interveniente que funciona como um intermediário entre a verdade e tudo o que é importante e, usando palavras de políticos, as bases. 

Só nos chega aquilo depois de filtrado por interesses pessoais dos mesmos, ou seja o inócuo e o deixa andar. 

E é com isto ou com estes que os homens da troika têm de conviver e se relacionar. Fica-se com aquela impressão não de que são as raposas que vêm visitar o galinheiro, mas as galinhas que vêm a Portugal falar com as raposas para que não depenem tanto mesmo sob pena de morrer.
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